Capitão Tsubasa, São Paulo e um velho futebol brasileiro

Nos anos 1990, o Japão emergia com o que poderia ser a grande liga do futuro do futebol mundial. A J-League, com características muito peculiares como uniformes espalhafatosos e clubes vinculados às grandes empresas japonesas, atraía grandes jogadores da mesma forma que os árabes conseguem fazer hoje. Até então um país apaixonado por esportes tradicionais, como tiro com arco e artes marciais, além de beisebol e tênis de mesa, o Japão recebia muito bem o futebol, o que terminaria com a realização da Copa do Mundo de 2002.

Entre os esforços para fazer crescer o esporte no país do sol nascente, esteve a realização de um anime curioso, que ficou bastante conhecido no Brasil: “Kyaputen Tsubasa” (katakana para “Captain Tsubasa”), lançado como mangá por Yoichi Takahashi em 1981 e como anime em 1983 pela Shonen Jump! e pela TV Tokyo, ficou conhecido no Brasil como “Os Super Campeões”, quando exibido pela TV Manchete no boom dos animes de 1995-2000. Em 2018, já na época dos grandes streamers de anime (Crunchyroll, Funimation, AnimeFire etc), foi remasterizado nume versão tecnicamente perfeita, cobrindo problemas de som e movimento, muito comuns início da era dos animes.

As memórias de um grande jogador

Oliver Tsubasa, na versão mangá, realizando seu sonho de atuar por um clube brasileiro

A história se dá em torno de Oliver Tsubasa, o capitão do time de sua escola Shuutetsu, rival da escola Nankatsu. Até então fracassada no futebol, a Shuutetsu recebe o jovem Tsubasa como um novo reforço, descoberto nas ruas de interior do Japão, e o garoto provinciano mostra-se o grande nome do futebol colegial japonês. O resto não tem muito detalhamento, ao menos não para descrever aqui. Muitas partidas, muita rivalidade, muitos sonhos e nervosismos de vestiário, e um fator peculiar.

O sonho de Tsubasa, nos idos dos anos 1980, era vestir a camisa de um clube brasileiro. À época, o Brasil era muito mais referência em futebol que ainda é. Vinha-se de 10 anos da Copa de 1970, Pelé recém-aposentado, seleção de 82 encantando o mundo. E, durante a história, ele consegue jogar pelo São Paulo. Não se faz muita ideia de por que ele tenha escolhido o até então discreto São Paulo, em comparação com o Santos, de Pelé, Botafogo e seus muitos craques de seleção, ou o Flamengo e o Atlético Mineiro, que eram os times do momento no país.

Possivelmente, São Paulo era a principal cidade, Takahashi apenas buscou saber sobre os times do Brasil, encontrou um time com o nome da “capital”, o que seria de fácil assimilação para seu público, em matéria de clubes, já que Tsubasa não poderia ser da seleção brasileira. Futebol de clubes, naquele tempo, era praticamente restrito a seus próprios países. Não havia Real Madrid, não havia Flamengo. No muito, havia o Santos, mas ele preferiu o São Paulo.

O legado

Haikyuu, anime sobre um jovem de baixa estatura que sonha em ser atleta profissional de vôlei, é um dos maiores sucessos do momento

Projetado para promover o futebol no Japão, teve um sucesso razoável e foi até exportado como o “anime de futebol”, embora não tenha transformado o potencial econômico japonês numa possibilidade de erguer uma grande liga. Dinheiro compra muita coisa no futebol, mas não compra tradição, paixão, o que chineses já experimentaram há uns 10 anos e os árabes podem vir a conhecer nos próximos 10.

Entretanto, criou um dos mais fortes segmentos de animes: os animes de esportes. Hoje, o maior, de longe, é Haikyuu!, baseado num time de vôlei, mas há animes esportivos que vão desde Fórmula 1 até tiro com arco e patinação no gelo. A ideia de emular um esporte por anime, oferecendo um herói, mas não garantindo a ele a vitória, torna-se, para os fãs do gênero, uma deliciosa forma de torcer não para um clube ou país, mas para um herói.



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