Call of Duty, viés americano e o apagamento de outras histórias

A franquia Call of Duty é um dos maiores fenômenos do entretenimento digital. Com gráficos impressionantes, jogabilidade viciante e campanhas cinematográficas, ela cativa milhões de jovens no mundo inteiro — inclusive no Brasil. Mas por trás da ação envolvente, há uma questão raramente discutida: o que esse jogo nos ensina sobre o mundo? E, mais importante: de que lado da história ele quer que estejamos.

Jogar Call of Duty quase sempre significa jogar como um soldado americano. Significa viver a guerra pelos olhos do império. Missões são moldadas para justificar ações militares ocidentais, retratar inimigos genéricos do "Oriente Médio", da "Ásia comunista" ou de países fictícios que não escondem suas inspirações. A pergunta que fica é: quem vai jogar com o Vietnã? Com a resistência palestina? Com os combatentes iemenitas que defendem vilarejos de bombardeios?

Quando resistência é confundida com vilania

É preciso separar o que são crimes históricos (como o nazismo, o apartheid, o fascismo europeu) de lutas armadas legítimas contra ocupações ou agressões. Ninguém defende, nem deve, um jogo em que se jogue como nazista — não por censura, mas por respeito à verdade histórica e às vítimas de regimes genocidas.

Mas colocar todas as resistências armadas no mesmo saco é um erro. A luta do povo vietnamita contra a ocupação americana não é moralmente comparável ao regime de Hitler. O mesmo vale para povos que resistem a ocupações prolongadas, bloqueios e ataques com drones. Há histórias legítimas de defesa da própria terra, da cultura, da sobrevivência — mas essas não aparecem como jogáveis em Call of Duty. Elas são o “inimigo genérico”, o "terrorista", o "insurgente".

A consequência? Uma geração que aprende a associar resistência com crime. Que vê a guerra sempre pelo ponto de vista do invasor. Que se identifica com o soldado que entra num país estrangeiro com o direito de atirar primeiro. Isso prejudica diretamente a formação da consciência nacional e crítica de jovens que, em vez de se questionarem sobre sua posição no mundo, passam a internalizar uma narrativa estrangeira — e dominante.

O que isso tem a ver com o Brasil?

Muita gente pode pensar: “mas isso é só um jogo”. Não é tão simples. Jogos formam imaginários, moldam empatia e constroem identidades. Quando um adolescente brasileiro joga Call of Duty e se vê como um soldado americano, ele está inconscientemente aceitando aquela perspectiva como a mais legítima. O mundo é apresentado com uma lente muito específica: a lente da política externa dos Estados Unidos.

O problema não está em haver um lado — toda ficção tem —, mas em só haver um lado. Nunca jogamos como o camponês que perdeu a casa para um míssil. Nunca como o guerrilheiro que quer apenas expulsar o ocupante. Nunca como o civil que, diante de décadas de silêncio internacional, pega em armas porque não há outra opção. Essas figuras são excluídas, invisíveis, desumanizadas.

E quando um jogo exclui vozes inteiras da história, ele ajuda a manter estruturas de dominação também no plano simbólico. Isso enfraquece o senso crítico de jovens brasileiros, que deixam de questionar a lógica das guerras que consomem países periféricos e acabam repetindo discursos prontos, sem perceber que são parte da engrenagem.

Jogar Call of Duty pode ser divertido. Mas é preciso entender o que ele está ensinando — e, acima de tudo, o que está omitindo. É hora de lembrar que o controle na nossa mão também é uma ferramenta política. E que toda história tem mais de um lado — mesmo quando o jogo insiste em esconder isso.



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