Murakami, Norwegian Wood e o sofrimento atemporal do Japão
A literatura japonesa contemporânea vem produzindo êxitos imensos, com nomes como Kazuo Ishiguro, Satoshi Yagisawa, Yoko Ogawa e, o principal deles, Haruki Murakami. Muito embora Ishiguro, meio japonês meio britânico, tenha vencido o prêmio Nobel – em grande parte pelo pé que tem no mesmo ocidente do prêmio eurocêntrico –, comercialmente e, para muitos, literariamente, Murakami o precede e supera.
Considerando-se desta forma, há de se cogitar qual o principal livro da literatura japonesa contemporânea, se “A crônica do pássaro de corda” (1994), “Kafka à beira-mar” (2002) ou “1Q84” (2009), todos verdadeiros labirintos em formas de romances, colossais em quase ou mais de mil páginas. Contudo, seguramente o pioneiro e singelo, mas, ainda assim, candidato a melhor, seria “Norwegian wood”, de 1987, em alguns países publicado como “Tokyo blues”. No Brasil, foi publicado em 2008 pela editora Alfaguara.
O trauma e o futuro (sem spoilers)
Toru e Naoko, em adaptação para o cinema (2009).

O livro fala sobre uma das realidades mais difíceis do Japão, país não muito dado a problemas sociais: o suicídio. Trata do trauma e da desilusão. Sobre como muito pouco pode tirar o sentido da vida, e como o muito pode ser toda uma vida, quando se trata do sofrimento, na cultura japonesa. Talvez por sua atemporalidade, em que um instante é sempre e sempre é um instante, como ocorre na moral de todas as culturas de matriz taoista. Lidar com o sofrimento existencial é particularmente difícil para um povo tão confortável quanto ao material.
“Norwegian wood” conta a história de Toru, um jovem estudante de teatro, e sua amiga, meio namorada, Naoko. Ele, um jovem estável e apático, ela uma garota apaixonada, mas excessivamente emocional. Por seus diferentes temperamentos, ambos, que foram amigos de infância, lidam diferentemente com o trauma da morte do irmão de Toru, Kazuki, que foi namorado de Naoko e se matou com o escapamento do carro.
A jovem, alguns anos depois, não se perdoa por uma morte da qual não tem culpa, e recebe os cuidados do ex-cunhado, com quem se relaciona amorosamente de forma pouco intensa, dada a apatia de Toru e sua total instabilidade. Uma das poucas coisas que ambos compartilham intensamente é a paixão pelos Beatles, num romance passado nos anos 1960, sendo a desconhecida “Norwegian wood” a canção do quarteto de Liverpool favorita de Naoko.
Nada faz sentido (com spoilers)
Embora haja muitos flashbacks, a maior parte da história se passa com a garota no hospital psiquiátrico, tentando se recuperar do sofrimento interminável, com a ajuda de Reiko, uma pianista cujos problemas mentais fracassaram sua carreira profissional e casamento. Os diálogos, sempre retratando a sensação permanente de perda e desorientação da jovem, assim como a incapacidade de Toru em corresponder, sempre ecoam a morte de Kazuki.
Nessa roda de sofrimentos e desilusões, Toru é o ponto de convergência do suicídio do irmão e da previsível tragédia de Naoko, e só pode despertar seus sentimentos mais profundos quando ela, ao fim das contas a mulher que ama, suicida-se enforcada numa árvore. Isso após um dia em que ambos se encontraram, tiveram uma tarde agradável com um violão, tocando, entre outras canções, a tão querida “Norwegian wood”, numa falta de sentido tão tocante quanto fora a vida da jovem traumatizada pela morte do primeiro amor.
O sentimento

Toru depara-se com o sentimento. Vaga em sofrimento por todo o Japão, como se fosse se tornar um morador de rua, e demora a se recompor. Não se sabe como ele se recupera, porque isso o livro não conta com precisão, mas termina na cena que, na verdade, é o começo do livro, sendo a história contada num imenso flashback. Ele é um dramaturgo importante, anos depois de aprender a ter emoções. Vai dirigir sua peça na Alemanha e, após o pouso, ouve o som do avião tocar a música preferida de seu amor da juventude. E chora. Copiosamente.