Eternal Darkness: terror cthulhu e arqueológico para GameCube
Jogos de survival horror, um dos gêneros mais prestigiados da cultura gamer, usualmente se notabilizam pelos momentos de ação, intercalados por muitos puzzles a serem resolvidos. Busca-se chave aqui, abre-se porta acolá, decora-se um código para inserir debaixo da estátua, e assim progride-se. Outros são aqueles em que você joga na primeira pessoa, resolve enigmas e corre, desesperadamente, quando a ameaça do jogo se aproxima, qualquer que ela seja.
Um desses jogos, porém, se diferenciou bastante, apresentando um terror muito arqueológico, bem na vibe Tintim, Indiana Jones, Duck Tales, só que de atmosfera muito sombria e um sistema de jogo que lhe impunha um desafio a mais e perturbador: além de lutar para não morrer, você tem de se esforçar para não enlouquecer. Tudo isso em meio à exploração de tumbas e dungeons de civilizações do passado, em busca de relíquias perdidas, em diferentes períodos do tempo.
Uma mansão e muitos segredos
Os dois cenários jogáveis: Alexandra no escritório do avô (acima), Pious, ainda bom, buscando desvendar uma tumba persa (abaixo).


Sim, uma mansão. Como um jogo de terror não começar numa mansão, certo? É uma das facetas mais comuns de todas as histórias de terror, de “O gabinete do Dr. Caligari”, filme de 1920 dirigido por Robert Wiene, no tradicional expressionismo alemão, até o moderno e aterrorizante hollywoodiano “A mulher de preto” (2012), de James Watkins, a mansão mal-assombrada é uma das âncoras de quaisquer filmes de terror.
Pois bem, em “Eternal Darkness: Sanity's Requiem” (2002), lançado para Nintendo GabeCube, o jogo explora uma engine parecida com Resident Evil, Silent Hill, para colocar o jogador no controle de Alexandra Roivas, que perde o avô arqueólogo e linguista assassinado. Ela vai à casa, a pretexto de resolver problemas de herança, mas decide mesmo é investigar por que o mataram.
Sabendo alguns dos segredos do avô, os quais a polícia desconhecia e terminara sem sucesso nas buscas, Alexandra acessa um livro chamado “Tomo da Escuridão Eterna”, descobre que ele reúne histórias do passado, escritas em primeira pessoa, e que ela pode, por meio da magia do livro, acessá-las revivendo a narrativa na pele do protagonista. Ou seja, ela se torna a pessoa que narra cada história.
No entanto, não são todas as cartas que estão no livro, porque o avô espalhou algumas por locais seguros, a fim de não deixar que estranhos descubram seus segredos, e a casa é cheia de códigos, cofres e artefatos variados, com seus enigmas para revelar uma carta escondida. O jogo, portanto, divide-se em dois momentos: Alexandra procurando trechos de cartas para avançar na história deixada pelo avô, e o momento em que se desvenda essas histórias ao vivê-las na pele de quem a protaginizou.
Não enlouqueça

Um soldado romano chamado Pious, explorando uma tumba persa. Uma escrava khmer chamada Ellia, fugindo por dentro dos templos de Angkor Wat, no Camboja. Um monge agostiniano na Abadia de Mainz, na Alemanha. E assim várias outras personagens, vividas hibridamente entre elas e Alexandra, revelam a história de um artefato ancestral, muito anterior às primeiras civilizações, que foi apropriado por Pious fez dele o vilão da história, que persegue e domina todos os que tocam o mesmo tipo de relíquia, em civilizações diferentes.
O espírito do soldado romano, o primeiro a ser tocado pelo objeto, torna-se o mais poderoso e sedento dentre os contaminados por sua essência de maldade, a qual deve ser compreendida com o passar da história. A questão é: essa essência enlouquece, e, enquanto joga e quanto mais se aproxima dela, e enfrenta as armadilhas e monstros que a protegem, a barra de vida decresce e você morre se apanhar demais, ao mesmo tempo em que a barra de loucura cresce e te leva à completa insanidade se você bater demais, o que pode te levar ao suicídio.
Isto é: o melhor é sempre fugir, evitar armadilhas, e concluir as tumbas que conduzem o jogador à relíquia perdida e predada pelo romano Pious. Ele capturará cada personagem, mas Alexandra vai coletar importantes informações para o progresso nas investigações de por que assassinaram o seu pai, com um tiro à queima-roupa na poltrona do seu escritório.
Vale a pena?

Há de se pesar a defasagem dos gráficos e as dificuldades de boot dos jogos do GameCube, que impopularizaram o console. Embora de geração Playstation 2, o jogo ainda conserva características de Playstation 1, sem a estrutura de cenários pré-renderizados, o que torna tudo muito quadrado. E a engine, similar à dos jogos de terror citados acima, tem problemas de execução, de modo que o cenário trava demais ou leva muito tempo para carregar. Exceto isso, o jogo é bom, a jogabilidade não compromete e tudo é superado por uma história única, especialmente para quem ama história, arqueologia, literatura vitoriana e cenários cthullhu e Lovecraft, além de Indiana Jones e Tintim.
Embora tenha sido um jogo para o praticamente extinto GabeCube, o emulador para Nintendo chamado Dolphin e uma ROM qualquer de sites especializados resolve o problema.